Por Elaine Pauvolid

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Aliás 19

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Editorial

 

        Estamos preocupados com a qualidade dos eventos de poesia, já dissemos. Mas que fazer, perguntamo-nos. Pensamos em duas soluções: uma, as pessoas devem consultar duas ou três pessoas de sua confiança possuidoras de sensibilidade. A consulta deve se referir a qualidade dos versos que o autor pretende editar ou declamar. Se os consultores de ocasião disserem que estão ótimos, o autor deve seguir em frente e não ligar para os que lhe queiram impedir a imaginação. Se os avaliadores disserem que não entenderam nada ou nada disserem, tente mais dois, se o mesmo ocorrer, reflita melhor, leia mais, principalmente Manoel Bandeira, Rilke, Fernando Pessoa e Clarice Lispector. Faça novos poemas, consulte as mesmas pessoas do início e veja o que ocorre. Se acontecer de elas emitirem um sorriso sincero de satisfação terna, você está apto a sair escrevendo por aí e declamando. É claro que a utilidade disso é só para o autor, porque o público geralmente é generoso. O que, aliás, queremos é que as pessoas, os autores que não são poetas de verdade não percam seu tempo, porque a vida exige mais e sempre.
   
     Duas, quanto aos já aclamados pelo grupo formador do público de eventos, sugerimos, e isso também serve como auto-crítica, que os poetas levem textos mais novos. Que se misturem novos a recentes, porque estamos ficando repetitivos.



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Alma de Poeta


 

Conto máximo


Gaspar
Leonardo Vieira

 

        A porta da casa se abre e por ela atravessa o pátio um homem jovem, corpanzil e cabelos compridos. Atinge a construção em frente, e enfiando as mãos entre folhas de trepadeira, descobre uma aldrava, gira-a em seu eixo, deslocando a porta que dá acesso ao interior.
        A construção consiste num laboratório, que Gaspar, o dono da casa, construiu a alguns anos. Dentro dele, descobrimo-nos num vestíbulo com uma cozinha na lateral, e uma escada que dá acesso aos cômodos superiores. Gaspar sobe por ela, a passo ligeiro, e no patamar abre a porta do escritório.
        Catres metálicos, estantes com vidros, tubos de ensaio, livros, animais imersos em soluções de formol, quadros com desenhos de anatomia, um esqueleto para estudos. Gaspar senta-se à escrivaninha. De uma gaveta retira uma chave.
        Contrações faciais atingem seu rosto, quando exibe a chave diante dos olhos. As pálpebras se comprimem, o lábio inferior treme num ricto. Gaspar se levanta, aperta a chave como se quisesse perfurar com ela a palma da mão. Vai até uma porta de aço, onde a insere na fechadura.
        Uma luz azulada emana dos tanques de vidro, dispostos ao longo das paredes do cômodo. Dentro deles, corpos femininos flutuam, como peixes em aquários. Os olhos globulosos, penetrantes, observam Gaspar.
        As mulheres, imersas na solução que lhes conserva a carne, têm a pele esbranquiçada, certas partes do corpo cobertas por nódoas, as bocas exibindo arcadas de poucos dentes, as gengivas como esponjas de sangue pisado. Uma mulher extremamente gorda e velha ocupa um dos tanques. Sua mãe.
        Gaspar comprime o corpo de encontro ao vidro. A velha lembra-lhe um peixe cinzento e engelhado. Mas os olhos, chatos e brilhantes, são ainda olhos vivos. Fixam Gaspar. E flutuando no líquido azul, devassam sua intimidade, abrem sulcos em sua carne, até atingirem-lhe os ossos.
        Então, Gaspar cai de joelhos diante do tanque. Encosta a boca no vidro e beija sua mãe.
        Foi daí que saiu. Expulso do corpo podre inchado, mas não para dentro da água. Em vez disso, a terra úmida, teve de sentir o corpo ensangüentado preso pelo cordão umbilical ser quase digerido pela lama. E nitidamente, lembrava-se dos coveiros, acima dele, enquanto a chuva tornava a lama mais frágil, ainda distinguia suas pás entre as pernas de sua mãe, as mãos tentando desesperadamente empurrá-lo para baixo. Ouvia o barulho das pás e das ferramentas, dos cabos das pás empurrando-o para a lama, os estalos das línguas dos coveiros.
        E aqui está. Gaspar tenta imitar os movimentos de sua mãe, enquanto os olhos dela, como tenazes, quebram-lhe os ossos. Gaspar construiu o laboratório pouco antes de sua mãe se afogar.
        Com urgência, os coveiros já estavam lá. Debruçados sobre a banheira onde sua mãe boiava, morta. Inseriam as pontas das pás no corpo imerso na água. Mas logo Gaspar botou-os para correr. Não queria entregar sua mãe à terra úmida, aos grãos lamacentos, à chuva que traz frio.
        Um tanque com água quente. Como um aquário onde os peixes permanecem aquecidos para se reproduzirem. Difícil foi carregar sua mãe para o pátio, num carro, subir a escada, fazê-la escorregar para o tanque.
        Ele descola a boca da superfície do vidro, e deixa o corpo cair, sentindo as costas estalarem contra o chão. Chão árido, ainda possui os olhos de sua mãe fixos em sua cabeça. Os movimentos dela, flutuando em seu cérebro.
   
     Há outras mulheres dentro do cômodo. Mulheres jovens. Esguias. Mulheres com os olhos saltando das órbitas, como são os olhos dos mortos. As bocas de algumas foram costuradas, as bocas que Gaspar chegou a beijar.
        Gaspar olha para cada uma das mulheres. Na posição em que se encontra, deitado sobre o chão, com a cabeça voltada para ela. Foi a primeira. Depois que a viu quis levá-la para conhecer sua mãe, convidando-a para sua casa. E ela não quis o pátio? Tirou os sapatos para pisar a terra úmida, estava chovendo. Gaspar sabia que o nascimento começava ali, sobre o pátio, e também terminava. Porque sobre a terra escutava o barulho das pás e das ferramentas, os estalos das línguas dos coveiros.
        Ela flutua, lustrosa e branca, dentro do azul do aquário. Gaspar começou com ela, a sua coleção de mulheres, porque é um colecionador. E não quis para ela a terra úmida em que nasceu. Jamais aceitaria que os seus pés sobre a terra, enquanto corria no pátio, afundassem mais na lama movediça.
        Ergue o corpo do chão. Senta-se. Sabe que às suas costas sua mãe – o deus em torno do qual flutua a constelação de mulheres que se aquece na sua luz, porque o corpo gordo e velho é o sol que as protege – sabe que os olhos dela são agora uma entidade única, um ser separado do corpo. Vigiando-o sempre.
        Gaspar se arrasta, rente ao chão, seu corpo enroscando-se pelo cômodo, olha uma a uma as mulheres nos tanques de seu mundo úmido.
        Todas elas. No pátio, enquanto corriam ao seu encontro. Com a mão dentro do bolso, Gaspar as segurava pelos braços. Cada vez que elas, sob a chuva que caía em suas bocas, abertas e sôfregas, abriam-nas para receberem seu beijo, Gaspar tirava a mão do bolso e cobria com o lenço embebido em veneno os seus narizes. Apertava-as, sob os braços compridos e musculosos, sentia os corpos lustrosos se debaterem, e os pés, os pés abandonavam a terra, erguia-as em seus braços, deixava que flutuassem, até que os espasmos terminavam, os corpos não transmitiam mais nenhum movimento. Morriam.
        Gaspar arrasta-se até a porta. Ergue-se, e de costas, atravessa o cômodo. Insere a chave na fechadura e fecha a porta. Dirige-se à escrivaninha, repondo a chave na gaveta.
        Quando atinge o vestíbulo, Gaspar aperta o interruptor; as luzes se apagam. Atravessa o pátio e está de novo em casa.

 

 

Le mot

Efêmero
(Silvana Salles)

O minuto que antecede
A previsão que a mente pode ver
É raro, efêmero
Não impede de acontecer

Este poema este no livro: Coincidências,2000 Massao Ohno  (Editor, São Paulo)
O livro pode ser encontrado na livraria do Espaço Unibanco

 

DEZ ANOS DA REVISTA LITERATURA

- (1992/2001) -

a Revista do Escritor Brasileiro

 

Publicação quadrimestral da Editora Códice, Brasília ISSN 1518-5109

Caixa Postal n. º 02205 - CEP 70349.970 - Brasília, Brasil.

E-mail: niltomaciel@yawl.com.br <mailto:niltomaciel@yawl.com.br>

Telefones (61) 9962.4911 e 349.0643

 

Programação:

 

Dia 28 de abril:

 

10 horas Abertura Auditório Cyro dos Anjos (Associação Nacional de Escritores; SEPS; EQS 707/907, bloco F, Ed. Almeida Fischer, Brasília)

Palavra de Branca Bakaj Presidente da ANE

Saudação de João Carlos Taveira aos colaboradores da Revista

Homenagem póstuma a Aracyldo Marques, Uilcon Pereira e Sérgio Campos, pioneiros da Revista, por Dimas Macedo (Poeta, crítico literário e professor de Direito Constitucional na Universidade de Fortaleza, UNIFOR)

Lançamento da edição nº 20 da Revista, no saguão da ANE

12 horas; Almoço de Confraternização

14 horas; Mesa redonda sobre o tema &#8220;A Revista Literatura, a Imprensa Literária e a Literatura no Brasil Hoje

Abertura: Nilto Maciel

16 horas Lançamentos de livros de colaboradores da Revista: O Fio e a Meada (Ensaios de Literatura Cearense), de Batista de Lima; A Distância de Todas as Coisas, poemas de Dimas Macedo; Pedras do Arco-Íris ou A Invenção do Azul no Edital do Rio, poemas de Barros Pinho; Veios do Corpo, poemas de Beatriz Escorcio Chacon; Tempos de Mula Preta, contos de Nilto Maciel; Uilcon Pereira no Coração dos Boatos, de Aricy Curvello; Fragmentos da Paixão, poemas de Anderson Braga Horta; Os Bons e os Maus, romance de José Maria Leitão; e caixinhas de poemas de diversos poetas brasilienses, por Edson Guedes de Morais.

20 horas Bate-papo livre na Pizzaria Germana

 

Dia 29 de abril:

 

10 horas Auditório Almeida Fischer - Mesa redonda sobre o tema;Perspectivas da Revista Literatura, da Imprensa Literária e da Literatura no Brasil.

 

Abertura: José Peixoto Júnior

 

12 horas Almoço de encerramento com seção de fotos

16 horas Lançamentos de livros de colaboradores da Revista: O Fio e a Meada (Ensaios de Literatura Cearense), de Batista de Lima; A Distância de Todas as Coisas, poemas de Dimas Macedo; Pedras do Arco-Íris ou A Invenção do Azul no Edital do Rio, poemas de Barros Pinho; Veios do Corpo, poemas de Beatriz Escorcio Chacon; Tempos de Mula Preta, contos de Nilto Maciel; Uilcon Pereira no Coração dos Boatos, de Aricy Curvello; Fragmentos da Paixão, poemas de Anderson Braga Horta; Os Bons e os Maus, romance de José Maria Leitão; e caixinhas de poemas de diversos poetas brasilienses, por Edson Guedes de Morais.

20 horas ; Bate-papo livre na Pizzaria Germana

acesse:

.www.armazem.literario.nom.br

 

 

 

 

Quantos Contos...

NOS JARDINS
Gustavo G. Braga

 

Embora se encontrassem à margem da baía, os jardins do museu permaneciam imóveis naquela manhã de verão. Nenhum sopro de brisa deslizava entre as folhagens reunidas nos grandes canteiros, e das pequenas flores que misturavam-se à relva parecia emanar um denso vapor. O sol abatia-se, impiedoso, sobre as pedras calcinadas, os cimentos, os espelhos d’água, a vegetação, formando uma espécie de massa homogênea das coisas, uma massa seca e quente, árida, um ser entorpecido.

Logo que Isabel desceu do ônibus diante do frontispício, atravessando os pilotis da construção, não pôde evitar um pequeno desapontamento. O amplo espaço aberto, os prédios vazados, o mar revolvendo-se ao longe deveriam favorecer um vento forte, insistente que esvoaçasse seus cabelos, que agitasse sua blusa entreabrindo-lhe os seios no decote displicente, uma sensação especial de liberdade.

"Não faz mal", pensou, seguindo o caminho em direção à costa, refugiando-se nas sombras dos coqueiros que se espaçavam, compridas, sobre a laje. Alguns metros adiante, porém, interrompeu o passo, indecisa, e penetrou numa alameda transversal. Acomodou-se no primeiro banco que se ofereceu.

Um grupo de sabiás dançava piruetas contra o céu, pequenos arabescos sobre as nuvens esponjosas e raras. Isabel desejou apanhá-los, deixá-los brincar na concha das mãos, bicando-lhe a pele. Um deles pousou junto a ela, num galho florido.

Então fechou os olhos. E um desejo enorme, inequívoco, de deixar-se invadir pelo mundo traduziu-se na respiração ofegante, voluptuosa. Misturar-se, de algum modo, imiscuir-se no azul do horizonte, na casca rugosa dos troncos, nas raízes serpeantes que mergulham os tentáculos no solo, ser um pássaro, talvez, e divertir-se com seus amiguinhos de asas.

Como é simples viver, às vezes. E pensou que havia poucos anos costumava passear com o pai naquele mesmo lugar, longe das feições taciturnas dos vizinhos intrometidos, da vigilância enfadonha da mãe, nos olhos acrílicos. Usava um vestido de renda cingido por um laço de três voltas, e ao escapulir-se pela grama, entre risadas e gritinhos, sem fôlego, numa espécie de desfalecimento, logo se deixava capturar pelos braços fortes, protetores que a lançavam no ar entre giros, virando-a pelo avesso, cobrindo-a de cócegas e beijos que não pareciam acabar jamais. Amava seu pai, e muito. Mesmo quando ele a beijou no pescoço, pela primeira vez, e nos lábios. E a voz doce murmurou palavras roucas e estranhas. Entreabriu-lhe as pernas, à maneira de um pai, e seu coração gemeu de prazer. Um prazer tão imenso que não desejou nunca mais acordar. Úmido e seco, pequeno e grande, seu pai. Riu sucumbida de carinhos.

Um moço negro, atarracado, passava entre os canteiros com um carrinho de mão. Trazia um espeto comprido que fincava, displicente, as folhas mortas. Poderia abordá-lo, agora, e dizer do fundo do coração: "Meu pai morreu, você sabia? Nós vínhamos aqui sempre, aos domingos, e brincávamos naquela praça ali. Está vendo aquela mangueira? Ele me punha em seu tronco, segurando os galhos, como num pequeno camarote de onde eu vislumbrasse os jardins." Então o moço sujo, mordiscando um palito, cuspiria para o lado. "O que eu tenho com isso, benzinho?", e a voz indolente, maltratada lançaria uma gargalhada sinistra.

Se fosse hoje uma cadela no cio, sairia por essas ervas desatinada em busca de um macho. E abanaria o rabo, logo que avistasse o animal peludo e preto, e se encolheria, arredia, rosnando como quem deseja. Um menino, desses idiotas meninos, lhe ofereceria um biscoito, o homem velho de avental jogaria água quente em suas ancas, mas ela se largaria, tesa, ao músculo feroz e compulsivo. O animal sobre ela, um esôfago.

Antes não era assim, no museu. Um sol mais brando, e corvinas brilhantes saltando do mar. Ao longo da avenida poucos carros vibravam as buzinas e seu ronco ensurdecedor. Isabel pegou um ramo, entre os dedos, e mastigou-o. O gosto da madeira ressecada, esfarelando-se, um gosto turvo, umedecendo na boca. Quantos gravetos na boca, retirados um a um dos galhos entrevados. Horas e horas pela tarde, esquecida das lições, dos serviços domésticos, da rotina oleosa. Um melaço, a rotina, aderindo viscoso no corpo, o cheiro doce e gordo, inchando-a de repugnância.

Talvez, ainda, a mãe se preocupasse. A mãe de Isabel. E perguntasse, pelo bairro, perambulando de doida, o destino da filha desencontrada. E listasse num papel seus lugares preferidos, um lenço afagando-lhe os olhos, uma gota de suor nascendo da testa. "Onde está minha filha? Vocês viram minha filha?", corroendo-se de culpas, latejando de dores. Pobre mãe. "Eu estou aqui, mãezinha! Debaixo do céu, você não está me vendo?"

Gostaria de abraçá-la, agora. E dizer-lhe, apesar de tudo: "Eu te amo, minha querida mãe! Eu te amo muito!" E tocar em seu rosto. Seu colo. O colo deformado que a pariu. O corpo gordo e disforme. Um dia seria assim, também? E pensou em seu ventre cheio, prenhe de vida, de riqueza, de luxúria. Um grupo de turistas patéticos espalhava-se no pátio, zumbindo e gesticulando, um bando de formigas ensandecidas. Rindo à solta. Como se houvesse razão para risos. Vermes. Um deles poderia aproximar-se, aquele senhor mesmo, de bermudão azul, óculos escuros e cabelos brancos. "Você está grávida, minha filha? Assim tão nova?" Um fluxo instantâneo de sangue afluiria às maçãs pálidas da jovem. Instintivamente baixaria a cabeça, o olhar, num sorriso de pudor e conivência. De que modo adivinhara? Transparece em nossa cor, nas pupilas? Vem do cheiro? Logo que se afastasse, mostraria a língua para ele, irritada e divertida. Meu filho sim, e daí? Poderia abrir as pernas, também, as entranhas, ele está aqui, não vê? Deliciou-se. Levaria seu menino em viagens, como eles, esses estrangeiros pastosos e moles. Imaginou-se assim, uma estrangeira: pastosa e mole. Articulando um idioma irreconhecível e bizarro. Chegando e partindo sem rumo. Um passaporte, apenas. Um nome no passaporte. Ou então poderia matá-lo. Sim, matá-lo. É dessa maneira que as crianças devem nascer: mortas. Conversaria com o médico, a sós. Tomaria suas mãos, mimando seus dedos, nas pontinhas, lindos dentes brancos num sorriso enigmático. "Vamos matá-lo?" Os médicos são assim, matam sem pudor.

Queria ser médica, e um dia falou ao pai: "Eu vou ser médica, e descobrirei a cura do câncer." Ele achou graça, uma criança, ele disse. Decepcionou-se. Às vezes acontece isso, não nos levam a sério. É preciso que a gente cresça e os surpreenda, para que acreditem. Mas aí somos velhos, secos, sem sonhos, e não importa mais que tenhamos sonhado algum dia. Os homens são desprezíveis.

Um rapaz vendia bolinhos, num pequeno tabuleiro. Parecia triste, olhando para o vazio. Usava um turbante branco, e uma roupa toda branca, de baiano. Deviam ser de tapioca. Isabel caminhou até ele. Chamou-o três vezes. "Quanto custa o bolinho, moço? Moço? Quanto é o bolinho?" O desgraçado não olhava para ela, se fazia de surdo. Esses pés-de-chinelo, se fazem de difíceis, parece que estão nadando em dinheiro. Se fosse de outro temperamento, com certeza apanharia uns três, sem pagar, e ainda chutaria o resto. Uma graça, a comida se esparramando no chão. Era assim antigamente. Lembrava-se do pai, corado, morrendo de vergonha, desculpando a malcriação. Criança malcriada. Nem gostava de doces.

Isabel, no fundo, achava não ter mais o que aprender. Debaixo da imponente estrutura, olhando as janelas metálicas perfilando-se na fachada, adivinhava os quadros, os maravilhosos quadros que se escondiam na penumbra. Algumas luminárias destacavam uma pintura amarela. Três meninas, deleitando-se num bosque verdejante, debaixo de uma oliveira, ao pé de um lago muito azul onde garças brincavam. Usavam vestidos longos e franjados, fechados no pescoço. Uma delas se despia, e de anágua correu a banhar-se. Os pés, tateando o cascalho escorregadio, arrepiavam-se de frio, e passou a jogar água nas outras, por farra. Seu rosto, seus braços, seu corpo estavam lindos, salpicados de gotículas, resplandecentes na luz. Isabel gostou da brincadeira, e meteu-se entre elas com irreverência. Como é bom brincar! E dizer que não conhecia os quadros.

Assim que sua mãe descesse do ônibus, e atravessasse as muralhas vazadas do museu, berraria como alguém que esconjura o destino, como alguém que blasfema contra a vida que insiste em pulsar. Chamaria a filha perdida, única razão de sua existência, e ao cruzar aquele canteiro onde violetas e jasmins ostentam sem pudor suas virtudes, Isabel se ergueria, dizendo: "Sou eu, mãezinha, não está me vendo?" A pobre mulher olharia nas árvores, e nos bancos, desesperada e lúcida, vencida. Faria o sinal da cruz, ajoelhando-se. "Eu estou aqui, não está me vendo?", insistiria Isabel, a mão na barriga, em seu filho. "Aqui, mãe, debaixo do céu. Entre os passarinhos."

 

Luiz Otávio Oliani


Da arte de fruir

Perguntaram-me: "que quis dizer com aqueles versos do seu poema?". Respondi: poesia não necessita de explicação, pois se sustenta por si própria. O poeta não precisa dizer nem se justificar porque escreveu tal ou qual verso, ou ainda o que quis dizer com eles.

A fruição de um poema varia conforme a visão particular de cada leitor. Assim sempre há de se achar algo novo ou inusitado em uma poema, pois ele sempre abarca uma compreensão infinita de possibilidades. Há, portanto, lacunas indecifráveis e obscuras numa obra de arte.

Dentro do universo poético, residem elementos que lhe são peculiares como a síntese, o ritmo, a musicalidade, a metáfora, entre outros. Isto não quer dizer que não possa existir um texto que seja repleto de rimas, de linguagem conotativa ou de outros artifícios. Assim como é difícil desenvolver uma teoria a respeito do que seja o poema, ele mesmo é em si simples e dispensa explicações. O poema é ele próprio.



Luiz Otávio Oliani é graduado em
Letras pela UFRJ. É poeta, revisor, colunista da Revista Literária
Sociedade dos Poetas Novos/RJ e passará a colaborar com regularidade neste espaço de Aliás.

Aliás, recomendamos!

   A assinatura da Revista Lieterária da SPN. 
Para se informar ligue para  021 450-4383 ou escreva para
SPN
Rua Canutama, 134, Vila Valqueire Rio de Janeiro, RJ, 
CEP 21340-440
- Brasil

Segue o que um homem sensato disse a respeito:
      "Parabéns pela revista que me enviaram. Sei como é heróico fazer este tipo de publicação. Mas há que ser feito. Há que se abrir caminho. Estou me referindo a ela em conversa com outros poetas. Há tantos poetas reunidos pela Internet que creio que eles se interessarão"

Affonso Romano de Sant’anna

Rio de Janeiro





 

DESTAQUEMOS, Aliás:

 

Forum de Poesia na UFRJ

Maio / Junho 2001

Programação

 

2 de maio - Abertura

Poesia e Memória

Luís Filipe de Castro Mendes

Gerardo de Mello Mourão

Detentor de vários prêmios de poesia, Luís Filipe Castro Mendes, atual cônsul de Portugal no Rio de Janeiro, é aclamado em seu país, pela segura, hábil e culta capacidade para dominar os aspectos formais da poesia. Gerardo de Mello Mourão, "cearense há mais de quatrocentos anos", com seu último livro "Invenção do Mar", escreveu, de acordo com o crítico Wilson Martins, o que já foi tentado inúmeras vezes e só agora alcançado, a epopéia da nacionalidade brasileira.

Local: Salão Dourado Palácio Universitário da Praia Vermelha Av. Pasteur, 250 – 2º andar Data: 2 de maio de 2001 – 4ª feira Horário: 19h

 

9 de maio - Poesia e Pensamento

Alberto Pucheu

Elaine Pauvolid

Caio Meira

Rita Moutinho

 

16 maio - Poesia e Oralidade

Chacal

Tanussi Cardoso

Salgado Maranhão

Sady Bianchin

 

23 de maio - Poemas em Verso

Bianca Ramoneda

Geraldo Carneiro

Jorge Lúcio de Campos

 

30 de maio - Ver o Verso

Alexandra Maia

Claufe Rodrigues

Mano Melo

Pedro Bial

 

6 de junho - Poesia na Antiguidade

Nely Maria Pessanha

Carlos Antonio Kalil Tannus

Marilda Evangelista dos Santos

Henrique Cairus

 

13 de junho - Música e Poesia

Bráulio Tavares

Numa Ciro

Fausto Fawcet

André Gardel

Flaviola

 

20 de junho - Poesia e Erotismo

Ítalo Moriconi

Leila Míccolis

Lúcia Nobre

Nei Leandro de Castro

 

27 de junho - Poesia em Tradução

Paulo Henriques Britto

Marco Americo Lucchesi

Geraldo Holanda Cavalcanti

Paula Glenadel

Ivo Barroso

 

4 de julho - Encerramento

Aníbal Cristóbo

Armando Freitas Filho

Leonardo Martinelli

 

Sociedade e Literatura


O papel da televisão na formação cultural do brasilleiro
Márcio Coutinho 

 

"A televisão tem o monopólio da influência e se esquece de que do outro lado existe um telespectador que é parte do sistema econômico, social e político do país e tem premência em desenvolver-se intelectualmente. Então, não se trata de dar aquilo que o povo quer, e sim refletir que a audiência vem daquela grande maioria que sequer tem condições de comprar um livro, um jornal, e acredita que está consumindo algo de qualidade. "

        Considerando a situação de carência cultural e a escassez de equipamentos para a atuação das artes junto às comunidades, o Brasil vive um momento de empobrecimento de programações culturais.
        Os produtores culturais queixam-se da falta de espaços adequados e da falta de público para prestigiar as atrações; o Ministério da Cultura diz que existe uma demanda por projetos que possibilita criação de eventos que façam nascer uma agenda permanente. Outros culpam a falta de interesse de empresários em apoiar projetos, já que a verba para tais investimentos é pequena.
        No meio deste quadro onde ninguém tem coragem de refletir radicalmente sobre a situação da cultura e, muito menos, tomar medidas construtivas, estão o artista e o povo. O artista fomenta a idéia de encontrar o público e colocá-lo diante de seu trabalho, já o povo, a grande massa, está cada vez mais imersa no baixo nível de leitura, distanciando-se da arte e direcionando seu lazer cultural na televisão, na videolocadora e nos videogames.
        Num país onde é marcante o desinteresse pela cultura, onde uma ida ao teatro ou mesmo comprar discos é considerado ainda um luxo para a maior parte dos habitantes, a televisão adquire um enorme significado, reinando sozinha em 98,3% das cidades.
        Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que realizou pesquisas relacionadas ao perfil dos municípios, revelou-se que em um total de 5.500 cidades pesquisadas 25% não tinham biblioteca, 84% dos municípios não possuem museu, 69% possuem apenas uma biblioteca, 86% não tem teatro e só 35% das cidades possuem livraria. As rádios AM estão em 20% e as FM em 34% dos municípios, a Internet em 15% e a TV a cabo amarga 7% de cobertura.
        Diante desse quadro a grande massa de brasileiros cai na freqüência da televisão aberta, e baseiam-se nas informações obtidas através do contato com as culturas de massa, caracterizada pelo bombardeio de imagens e a formação de opiniões de natureza dominante.
        Os resultados mediante a programação imposta pela mídia atual, não remetem a idéia de um questionamento por parte do público, onde se possa ter uma ampla visão da produção artística e condenar ou substituir os recursos.
        A programação (salvo algumas exceções) é a antítese da cultura e se mostra incapaz de nutrir a necessidade de consumo artístico da população, disseminando algumas formas de alienação, visto o baixo nível dos programas. As locadoras possuem maior freqüência do que as livrarias e lojas de discos e estão presentes em 70% dos municípios com mais de 10 mil habitantes, onde geralmente os campeões da locação são os conhecidos filmes hollywoodianos.
   
     Com exceção das TVs educativas, que trabalham exclusivamente no conceito de televisão cultural, hoje não resta nada de cultural na TV aberta, que na luta por altos índices de audiência caracterizam-se pelo alto teor de banalidade .
   
     O problema básico estaria na incompatibilidade entre o público que tem acesso à cultura de elite e o público guiado pela cultura massificada da televisão, que remete ao mercado televisivo. No Brasil 90% das emissoras são privadas e estão interessadas no quantitativo de telespectadores que quanto maior, maior torna o lucro.
        Sobre esse aspecto uma boa sugestão seria a de determinar a participação obrigatória de programações de nível cultural amplo.
        Tudo isso porque não vejo a televisão brasileira como uma instituição isolada do sistema social. Percebo a necessidade de se elevar a qualidade da programação das emissoras, e que seja discutida a ligação condicionada e dirigida da cultura em que se possam atingir os valores e costumes de todas as classes.
        A televisão tem o monopólio da influência e se esquece de que do outro lado existe um telespectador que é parte do sistema econômico, social e político do país e tem premência em desenvolver-se intelectualmente. Então, não se trata de dar aquilo que o povo quer, e sim refletir que a audiência vem daquela grande maioria que sequer tem condições de comprar um livro, um jornal, e acredita que está consumindo algo de qualidade.
        É possível alcançar uma programação qualitativa, seja ela cultural, informativa ou de qualquer natureza, basta o questionamento das pessoas, dos empresários e governo, atentando à valorização de sua produção e do público alvo, que vive o triste paradigma de baixo nível sócio-cultural.

 

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Elaine Pauvolid
Webeditor
Leonardo Viera
revisão 

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Os textos assinados são de inteira responsabilidade dos seus autores.

 

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