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Aliás 19
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Panfleto eletrônico de
cultura
Um projeto Novos Sentidos
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Editorial |
Estamos preocupados com a qualidade dos eventos de poesia, já dissemos. Mas que
fazer, perguntamo-nos. Pensamos em duas soluções: uma, as pessoas devem
consultar duas ou três pessoas de sua confiança possuidoras de sensibilidade.
A consulta deve se referir a qualidade dos versos que o autor pretende editar ou
declamar. Se os consultores de ocasião disserem que estão ótimos, o autor
deve seguir em frente e não ligar para os que lhe queiram impedir a
imaginação. Se os avaliadores disserem que não entenderam nada ou nada
disserem, tente mais dois, se o mesmo ocorrer, reflita melhor, leia mais,
principalmente Manoel Bandeira, Rilke, Fernando Pessoa e Clarice Lispector.
Faça novos poemas, consulte as mesmas pessoas do início e veja o que ocorre.
Se acontecer de elas emitirem um sorriso sincero de satisfação terna, você
está apto a sair escrevendo por aí e declamando. É claro que a utilidade
disso é só para o autor, porque o público geralmente é generoso. O que,
aliás, queremos é que as pessoas, os autores que não são poetas de verdade
não percam seu tempo, porque a vida exige mais e sempre.
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Conto máximo |
Gaspar
Leonardo Vieira
A porta da casa se abre e por ela atravessa o pátio um homem jovem, corpanzil e
cabelos compridos. Atinge a construção em frente, e enfiando as mãos entre
folhas de trepadeira, descobre uma aldrava, gira-a em seu eixo, deslocando a
porta que dá acesso ao interior.
A construção consiste num
laboratório, que Gaspar, o dono da casa, construiu a alguns anos. Dentro dele,
descobrimo-nos num vestíbulo com uma cozinha na lateral, e uma escada que dá
acesso aos cômodos superiores. Gaspar sobe por ela, a passo ligeiro, e no
patamar abre a porta do escritório.
Catres metálicos, estantes com
vidros, tubos de ensaio, livros, animais imersos em soluções de formol,
quadros com desenhos de anatomia, um esqueleto para estudos. Gaspar senta-se à
escrivaninha. De uma gaveta retira uma chave.
Contrações faciais atingem seu
rosto, quando exibe a chave diante dos olhos. As pálpebras se comprimem, o
lábio inferior treme num ricto. Gaspar se levanta, aperta a chave como se
quisesse perfurar com ela a palma da mão. Vai até uma porta de aço, onde a
insere na fechadura.
Uma luz azulada emana dos tanques de
vidro, dispostos ao longo das paredes do cômodo. Dentro deles, corpos femininos
flutuam, como peixes em aquários. Os olhos globulosos, penetrantes, observam
Gaspar.
As mulheres, imersas na solução que
lhes conserva a carne, têm a pele esbranquiçada, certas partes do corpo
cobertas por nódoas, as bocas exibindo arcadas de poucos dentes, as gengivas
como esponjas de sangue pisado. Uma mulher extremamente gorda e velha ocupa um
dos tanques. Sua mãe.
Gaspar comprime o corpo de encontro
ao vidro. A velha lembra-lhe um peixe cinzento e engelhado. Mas os olhos, chatos
e brilhantes, são ainda olhos vivos. Fixam Gaspar. E flutuando no líquido
azul, devassam sua intimidade, abrem sulcos em sua carne, até atingirem-lhe os
ossos.
Então, Gaspar cai de joelhos diante
do tanque. Encosta a boca no vidro e beija sua mãe.
Foi daí que saiu. Expulso do corpo
podre inchado, mas não para dentro da água. Em vez disso, a terra úmida, teve
de sentir o corpo ensangüentado preso pelo cordão umbilical ser quase digerido
pela lama. E nitidamente, lembrava-se dos coveiros, acima dele, enquanto a chuva
tornava a lama mais frágil, ainda distinguia suas pás entre as pernas de sua
mãe, as mãos tentando desesperadamente empurrá-lo para baixo. Ouvia o barulho
das pás e das ferramentas, dos cabos das pás empurrando-o para a lama, os
estalos das línguas dos coveiros.
E aqui está. Gaspar tenta imitar os
movimentos de sua mãe, enquanto os olhos dela, como tenazes, quebram-lhe os
ossos. Gaspar construiu o laboratório pouco antes de sua mãe se afogar.
Com urgência, os coveiros já
estavam lá. Debruçados sobre a banheira onde sua mãe boiava, morta. Inseriam
as pontas das pás no corpo imerso na água. Mas logo Gaspar botou-os para
correr. Não queria entregar sua mãe à terra úmida, aos grãos lamacentos, à
chuva que traz frio.
Um tanque com água quente. Como um
aquário onde os peixes permanecem aquecidos para se reproduzirem. Difícil foi
carregar sua mãe para o pátio, num carro, subir a escada, fazê-la escorregar
para o tanque.
Ele descola a boca da superfície do
vidro, e deixa o corpo cair, sentindo as costas estalarem contra o chão. Chão
árido, ainda possui os olhos de sua mãe fixos em sua cabeça. Os movimentos
dela, flutuando em seu cérebro.
Há
outras mulheres dentro do cômodo. Mulheres jovens. Esguias. Mulheres com os
olhos saltando das órbitas, como são os olhos dos mortos. As bocas de algumas
foram costuradas, as bocas que Gaspar chegou a beijar.
Gaspar olha para cada uma das
mulheres. Na posição em que se encontra, deitado sobre o chão, com a cabeça
voltada para ela. Foi a primeira. Depois que a viu quis levá-la para conhecer
sua mãe, convidando-a para sua casa. E ela não quis o pátio? Tirou os sapatos
para pisar a terra úmida, estava chovendo. Gaspar sabia que o nascimento
começava ali, sobre o pátio, e também terminava. Porque sobre a terra
escutava o barulho das pás e das ferramentas, os estalos das línguas dos
coveiros.
Ela flutua, lustrosa e branca, dentro
do azul do aquário. Gaspar começou com ela, a sua coleção de mulheres,
porque é um colecionador. E não quis para ela a terra úmida em que nasceu.
Jamais aceitaria que os seus pés sobre a terra, enquanto corria no pátio,
afundassem mais na lama movediça.
Ergue o corpo do chão. Senta-se.
Sabe que às suas costas sua mãe – o deus em torno do qual flutua a
constelação de mulheres que se aquece na sua luz, porque o corpo gordo e velho
é o sol que as protege – sabe que os olhos dela são agora uma entidade
única, um ser separado do corpo. Vigiando-o sempre.
Gaspar se arrasta, rente ao chão,
seu corpo enroscando-se pelo cômodo, olha uma a uma as mulheres nos tanques de
seu mundo úmido.
Todas elas. No pátio, enquanto
corriam ao seu encontro. Com a mão dentro do bolso, Gaspar as segurava pelos
braços. Cada vez que elas, sob a chuva que caía em suas bocas, abertas e
sôfregas, abriam-nas para receberem seu beijo, Gaspar tirava a mão do bolso e
cobria com o lenço embebido em veneno os seus narizes. Apertava-as, sob os
braços compridos e musculosos, sentia os corpos lustrosos se debaterem, e os
pés, os pés abandonavam a terra, erguia-as em seus braços, deixava que
flutuassem, até que os espasmos terminavam, os corpos não transmitiam mais
nenhum movimento. Morriam.
Gaspar arrasta-se até a porta.
Ergue-se, e de costas, atravessa o cômodo. Insere a chave na fechadura e fecha
a porta. Dirige-se à escrivaninha, repondo a chave na gaveta.
Quando atinge o vestíbulo, Gaspar
aperta o interruptor; as luzes se apagam. Atravessa o pátio e está de novo em
casa.
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Le mot |
Efêmero
(Silvana Salles)
O minuto que antecede
A previsão que a mente pode ver
É raro, efêmero
Não impede de acontecer
Este poema este no livro: Coincidências,2000
Massao Ohno (Editor, São Paulo)
O livro pode ser encontrado na livraria do Espaço Unibanco
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DEZ ANOS DA REVISTA LITERATURA |
- (1992/2001) -
a Revista do Escritor Brasileiro
Publicação quadrimestral da Editora Códice, Brasília ISSN 1518-5109
Caixa Postal n. º 02205 - CEP 70349.970 - Brasília, Brasil.
E-mail:
niltomaciel@yawl.com.br <mailto:niltomaciel@yawl.com.br>Telefones (61) 9962.4911 e 349.0643
Programação:
Dia 28 de abril:
10 horas
Abertura Auditório Cyro dos Anjos (Associação Nacional de Escritores; SEPS; EQS 707/907, bloco F, Ed. Almeida Fischer, Brasília)Palavra de Branca Bakaj Presidente da ANE
Saudação de João Carlos Taveira aos colaboradores da Revista
Homenagem póstuma a Aracyldo Marques, Uilcon Pereira e Sérgio Campos, pioneiros da Revista, por Dimas Macedo (Poeta, crítico literário e professor de Direito Constitucional na Universidade de Fortaleza, UNIFOR)
Lançamento da edição nº 20 da Revista, no saguão da ANE
12 horas
; Almoço de Confraternização14 horas
; Mesa redonda sobre o tema “A Revista Literatura, a Imprensa Literária e a Literatura no Brasil HojeAbertura:
Nilto Maciel16 horas
Lançamentos de livros de colaboradores da Revista: O Fio e a Meada (Ensaios de Literatura Cearense), de Batista de Lima; A Distância de Todas as Coisas, poemas de Dimas Macedo; Pedras do Arco-Íris ou A Invenção do Azul no Edital do Rio, poemas de Barros Pinho; Veios do Corpo, poemas de Beatriz Escorcio Chacon; Tempos de Mula Preta, contos de Nilto Maciel; Uilcon Pereira no Coração dos Boatos, de Aricy Curvello; Fragmentos da Paixão, poemas de Anderson Braga Horta; Os Bons e os Maus, romance de José Maria Leitão; e caixinhas de poemas de diversos poetas brasilienses, por Edson Guedes de Morais.20 horas
Bate-papo livre na Pizzaria Germana
Dia 29 de abril:
10 horas
Auditório Almeida Fischer - Mesa redonda sobre o tema;Perspectivas da Revista Literatura, da Imprensa Literária e da Literatura no Brasil.
Abertura:
José Peixoto Júnior
12 horas
Almoço de encerramento com seção de fotos16 horas
Lançamentos de livros de colaboradores da Revista: O Fio e a Meada (Ensaios de Literatura Cearense), de Batista de Lima; A Distância de Todas as Coisas, poemas de Dimas Macedo; Pedras do Arco-Íris ou A Invenção do Azul no Edital do Rio, poemas de Barros Pinho; Veios do Corpo, poemas de Beatriz Escorcio Chacon; Tempos de Mula Preta, contos de Nilto Maciel; Uilcon Pereira no Coração dos Boatos, de Aricy Curvello; Fragmentos da Paixão, poemas de Anderson Braga Horta; Os Bons e os Maus, romance de José Maria Leitão; e caixinhas de poemas de diversos poetas brasilienses, por Edson Guedes de Morais.20 horas
; Bate-papo livre na Pizzaria Germanaacesse:
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www.armazem.literario.nom.br
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Quantos Contos... |
NOS JARDINS
Gustavo G. Braga
Embora se encontrassem à margem da baía, os jardins do museu permaneciam imóveis naquela manhã de verão. Nenhum sopro de brisa deslizava entre as folhagens reunidas nos grandes canteiros, e das pequenas flores que misturavam-se à relva parecia emanar um denso vapor. O sol abatia-se, impiedoso, sobre as pedras calcinadas, os cimentos, os espelhos d’água, a vegetação, formando uma espécie de massa homogênea das coisas, uma massa seca e quente, árida, um ser entorpecido.
Logo que Isabel desceu do ônibus diante do frontispício, atravessando os pilotis da construção, não pôde evitar um pequeno desapontamento. O amplo espaço aberto, os prédios vazados, o mar revolvendo-se ao longe deveriam favorecer um vento forte, insistente que esvoaçasse seus cabelos, que agitasse sua blusa entreabrindo-lhe os seios no decote displicente, uma sensação especial de liberdade.
"Não faz mal", pensou, seguindo o caminho em direção à costa, refugiando-se nas sombras dos coqueiros que se espaçavam, compridas, sobre a laje. Alguns metros adiante, porém, interrompeu o passo, indecisa, e penetrou numa alameda transversal. Acomodou-se no primeiro banco que se ofereceu.
Um grupo de sabiás dançava piruetas contra o céu, pequenos arabescos sobre as nuvens esponjosas e raras. Isabel desejou apanhá-los, deixá-los brincar na concha das mãos, bicando-lhe a pele. Um deles pousou junto a ela, num galho florido.
Então fechou os olhos. E um desejo enorme, inequívoco, de deixar-se invadir pelo mundo traduziu-se na respiração ofegante, voluptuosa. Misturar-se, de algum modo, imiscuir-se no azul do horizonte, na casca rugosa dos troncos, nas raízes serpeantes que mergulham os tentáculos no solo, ser um pássaro, talvez, e divertir-se com seus amiguinhos de asas.
Como é simples viver, às vezes. E pensou que havia poucos anos costumava passear com o pai naquele mesmo lugar, longe das feições taciturnas dos vizinhos intrometidos, da vigilância enfadonha da mãe, nos olhos acrílicos. Usava um vestido de renda cingido por um laço de três voltas, e ao escapulir-se pela grama, entre risadas e gritinhos, sem fôlego, numa espécie de desfalecimento, logo se deixava capturar pelos braços fortes, protetores que a lançavam no ar entre giros, virando-a pelo avesso, cobrindo-a de cócegas e beijos que não pareciam acabar jamais. Amava seu pai, e muito. Mesmo quando ele a beijou no pescoço, pela primeira vez, e nos lábios. E a voz doce murmurou palavras roucas e estranhas. Entreabriu-lhe as pernas, à maneira de um pai, e seu coração gemeu de prazer. Um prazer tão imenso que não desejou nunca mais acordar. Úmido e seco, pequeno e grande, seu pai. Riu sucumbida de carinhos.
Um moço negro, atarracado, passava entre os canteiros com um carrinho de mão. Trazia um espeto comprido que fincava, displicente, as folhas mortas. Poderia abordá-lo, agora, e dizer do fundo do coração: "Meu pai morreu, você sabia? Nós vínhamos aqui sempre, aos domingos, e brincávamos naquela praça ali. Está vendo aquela mangueira? Ele me punha em seu tronco, segurando os galhos, como num pequeno camarote de onde eu vislumbrasse os jardins." Então o moço sujo, mordiscando um palito, cuspiria para o lado. "O que eu tenho com isso, benzinho?", e a voz indolente, maltratada lançaria uma gargalhada sinistra.
Se fosse hoje uma cadela no cio, sairia por essas ervas desatinada em busca de um macho. E abanaria o rabo, logo que avistasse o animal peludo e preto, e se encolheria, arredia, rosnando como quem deseja. Um menino, desses idiotas meninos, lhe ofereceria um biscoito, o homem velho de avental jogaria água quente em suas ancas, mas ela se largaria, tesa, ao músculo feroz e compulsivo. O animal sobre ela, um esôfago.
Antes não era assim, no museu. Um sol mais brando, e corvinas brilhantes saltando do mar. Ao longo da avenida poucos carros vibravam as buzinas e seu ronco ensurdecedor. Isabel pegou um ramo, entre os dedos, e mastigou-o. O gosto da madeira ressecada, esfarelando-se, um gosto turvo, umedecendo na boca. Quantos gravetos na boca, retirados um a um dos galhos entrevados. Horas e horas pela tarde, esquecida das lições, dos serviços domésticos, da rotina oleosa. Um melaço, a rotina, aderindo viscoso no corpo, o cheiro doce e gordo, inchando-a de repugnância.
Talvez, ainda, a mãe se preocupasse. A mãe de Isabel. E perguntasse, pelo bairro, perambulando de doida, o destino da filha desencontrada. E listasse num papel seus lugares preferidos, um lenço afagando-lhe os olhos, uma gota de suor nascendo da testa. "Onde está minha filha? Vocês viram minha filha?", corroendo-se de culpas, latejando de dores. Pobre mãe. "Eu estou aqui, mãezinha! Debaixo do céu, você não está me vendo?"
Gostaria de abraçá-la, agora. E dizer-lhe, apesar de tudo: "Eu te amo, minha querida mãe! Eu te amo muito!" E tocar em seu rosto. Seu colo. O colo deformado que a pariu. O corpo gordo e disforme. Um dia seria assim, também? E pensou em seu ventre cheio, prenhe de vida, de riqueza, de luxúria. Um grupo de turistas patéticos espalhava-se no pátio, zumbindo e gesticulando, um bando de formigas ensandecidas. Rindo à solta. Como se houvesse razão para risos. Vermes. Um deles poderia aproximar-se, aquele senhor mesmo, de bermudão azul, óculos escuros e cabelos brancos. "Você está grávida, minha filha? Assim tão nova?" Um fluxo instantâneo de sangue afluiria às maçãs pálidas da jovem. Instintivamente baixaria a cabeça, o olhar, num sorriso de pudor e conivência. De que modo adivinhara? Transparece em nossa cor, nas pupilas? Vem do cheiro? Logo que se afastasse, mostraria a língua para ele, irritada e divertida. Meu filho sim, e daí? Poderia abrir as pernas, também, as entranhas, ele está aqui, não vê? Deliciou-se. Levaria seu menino em viagens, como eles, esses estrangeiros pastosos e moles. Imaginou-se assim, uma estrangeira: pastosa e mole. Articulando um idioma irreconhecível e bizarro. Chegando e partindo sem rumo. Um passaporte, apenas. Um nome no passaporte. Ou então poderia matá-lo. Sim, matá-lo. É dessa maneira que as crianças devem nascer: mortas. Conversaria com o médico, a sós. Tomaria suas mãos, mimando seus dedos, nas pontinhas, lindos dentes brancos num sorriso enigmático. "Vamos matá-lo?" Os médicos são assim, matam sem pudor.
Queria ser médica, e um dia falou ao pai: "Eu vou ser médica, e descobrirei a cura do câncer." Ele achou graça, uma criança, ele disse. Decepcionou-se. Às vezes acontece isso, não nos levam a sério. É preciso que a gente cresça e os surpreenda, para que acreditem. Mas aí somos velhos, secos, sem sonhos, e não importa mais que tenhamos sonhado algum dia. Os homens são desprezíveis.
Um rapaz vendia bolinhos, num pequeno tabuleiro. Parecia triste, olhando para o vazio. Usava um turbante branco, e uma roupa toda branca, de baiano. Deviam ser de tapioca. Isabel caminhou até ele. Chamou-o três vezes. "Quanto custa o bolinho, moço? Moço? Quanto é o bolinho?" O desgraçado não olhava para ela, se fazia de surdo. Esses pés-de-chinelo, se fazem de difíceis, parece que estão nadando em dinheiro. Se fosse de outro temperamento, com certeza apanharia uns três, sem pagar, e ainda chutaria o resto. Uma graça, a comida se esparramando no chão. Era assim antigamente. Lembrava-se do pai, corado, morrendo de vergonha, desculpando a malcriação. Criança malcriada. Nem gostava de doces.
Isabel, no fundo, achava não ter mais o que aprender. Debaixo da imponente estrutura, olhando as janelas metálicas perfilando-se na fachada, adivinhava os quadros, os maravilhosos quadros que se escondiam na penumbra. Algumas luminárias destacavam uma pintura amarela. Três meninas, deleitando-se num bosque verdejante, debaixo de uma oliveira, ao pé de um lago muito azul onde garças brincavam. Usavam vestidos longos e franjados, fechados no pescoço. Uma delas se despia, e de anágua correu a banhar-se. Os pés, tateando o cascalho escorregadio, arrepiavam-se de frio, e passou a jogar água nas outras, por farra. Seu rosto, seus braços, seu corpo estavam lindos, salpicados de gotículas, resplandecentes na luz. Isabel gostou da brincadeira, e meteu-se entre elas com irreverência. Como é bom brincar! E dizer que não conhecia os quadros.
Assim que sua mãe descesse do ônibus, e atravessasse as muralhas vazadas do museu, berraria como alguém que esconjura o destino, como alguém que blasfema contra a vida que insiste em pulsar. Chamaria a filha perdida, única razão de sua existência, e ao cruzar aquele canteiro onde violetas e jasmins ostentam sem pudor suas virtudes, Isabel se ergueria, dizendo: "Sou eu, mãezinha, não está me vendo?" A pobre mulher olharia nas árvores, e nos bancos, desesperada e lúcida, vencida. Faria o sinal da cruz, ajoelhando-se. "Eu estou aqui, não está me vendo?", insistiria Isabel, a mão na barriga, em seu filho. "Aqui, mãe, debaixo do céu. Entre os passarinhos."
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Luiz Otávio Oliani |
Da arte de fruir
Perguntaram-me: "que quis dizer com aqueles versos do seu poema?". Respondi: poesia não necessita de explicação, pois se sustenta por si própria. O poeta não precisa dizer nem se justificar porque escreveu tal ou qual verso, ou ainda o que quis dizer com eles.
A fruição de um poema varia conforme a visão particular de cada leitor. Assim sempre há de se achar algo novo ou inusitado em uma poema, pois ele sempre abarca uma compreensão infinita de possibilidades. Há, portanto, lacunas indecifráveis e obscuras numa obra de arte.
Dentro do universo poético, residem elementos que lhe são peculiares como a síntese, o ritmo, a musicalidade, a metáfora, entre outros. Isto não quer dizer que não possa existir um texto que seja repleto de rimas, de linguagem conotativa ou de outros artifícios. Assim como é difícil desenvolver uma teoria a respeito do que seja o poema, ele mesmo é em si simples e dispensa explicações. O poema é ele próprio.
Luiz Otávio Oliani é graduado em
Letras pela UFRJ. É poeta, revisor, colunista da Revista Literária
Sociedade dos Poetas Novos/RJ e passará a colaborar com regularidade neste espaço de Aliás.
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Aliás, recomendamos!
A assinatura da Revista Lieterária da SPN. Segue
o que um homem sensato disse a respeito: Affonso Romano de Sant’anna Rio de Janeiro |
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DESTAQUEMOS, Aliás: |
Forum de Poesia na UFRJ
Maio / Junho 2001
Programação
2 de maio - Abertura
Poesia e Memória
Luís Filipe de Castro Mendes
Gerardo de Mello Mourão
Detentor de vários prêmios de poesia, Luís Filipe Castro Mendes, atual cônsul de Portugal no Rio de Janeiro, é aclamado em seu país, pela segura, hábil e culta capacidade para dominar os aspectos formais da poesia. Gerardo de Mello Mourão, "cearense há mais de quatrocentos anos", com seu último livro "Invenção do Mar", escreveu, de acordo com o crítico Wilson Martins, o que já foi tentado inúmeras vezes e só agora alcançado, a epopéia da nacionalidade brasileira.
Local: Salão Dourado Palácio Universitário da Praia Vermelha Av. Pasteur, 250 – 2º andar Data: 2 de maio de 2001 – 4ª feira Horário: 19h
9 de maio - Poesia e Pensamento
Alberto Pucheu
Elaine Pauvolid
Caio Meira
Rita Moutinho
16 maio - Poesia e Oralidade
Chacal
Tanussi Cardoso
Salgado Maranhão
Sady Bianchin
23 de maio - Poemas em Verso
Bianca Ramoneda
Geraldo Carneiro
Jorge Lúcio de Campos
30 de maio - Ver o Verso
Alexandra Maia
Claufe Rodrigues
Mano Melo
Pedro Bial
6 de junho - Poesia na Antiguidade
Nely Maria Pessanha
Carlos Antonio Kalil Tannus
Marilda Evangelista dos Santos
Henrique Cairus
13 de junho - Música e Poesia
Bráulio Tavares
Numa Ciro
Fausto Fawcet
André Gardel
Flaviola
20 de junho - Poesia e Erotismo
Ítalo Moriconi
Leila Míccolis
Lúcia Nobre
Nei Leandro de Castro
27 de junho - Poesia em Tradução
Paulo Henriques Britto
Marco Americo Lucchesi
Geraldo Holanda Cavalcanti
Paula Glenadel
Ivo Barroso
4 de julho - Encerramento
Aníbal Cristóbo
Armando Freitas Filho
Leonardo Martinelli
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Sociedade e Literatura |
O papel da televisão na formação
cultural do brasilleiro
Márcio Coutinho
"A televisão tem o monopólio da influência e se esquece de que do outro lado existe um telespectador que é parte do sistema econômico, social e político do país e tem premência em desenvolver-se intelectualmente. Então, não se trata de dar aquilo que o povo quer, e sim refletir que a audiência vem daquela grande maioria que sequer tem condições de comprar um livro, um jornal, e acredita que está consumindo algo de qualidade. "
Considerando a situação de carência cultural e a escassez de equipamentos para a atuação das artes junto às comunidades, o Brasil vive um momento de empobrecimento de programações culturais.
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Elaine Pauvolid
Webeditor
Leonardo Viera
revisão
Designe by

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